Heterogeneidade, qualidade, missingness e vazamento de informação
Um exame não aparece no prontuário. O dado está faltando — ou a ausência revela uma decisão clínica?
ERRO
O sistema falhou ao registrar.
DECISÃO
O exame não foi considerado necessário.
NÃO SEI
Sem proveniência, as duas histórias cabem no mesmo NA.
Escolha uma posição. No final, veremos se sua resposta mudou — ou ficou mais condicional.
Hoje saímos do algoritmo isolado e examinamos o sistema que produz os dados usados pelo algoritmo.
1 Ler
Que tipo de dado é este?
→
2 Situar
Por que ele foi produzido?
→
3 Auditar
O que falta ou antecipa o futuro?
→
4 Governar
Pode ser usado com segurança?
Fio condutor: que processo humano e institucional deixou este rastro no banco de dados?
Computação
mais rápida · mais barata · mais distribuída
Dados genômicos
volume e complexidade crescendo em ritmo extraordinário
O gargalo migrou: armazenar ficou mais fácil; definir o que o dado significa, para quem e em qual momento clínico continua difícil.
Milhões de registros não corrigem um desfecho mal definido. Podem apenas tornar uma conclusão equivocada mais precisa.
Em que situação mais dados aumentariam a confiança no erro, em vez de corrigi-lo?

Pessoa → busca cuidado → profissional decide → sistema registra → banco armazena
O EHR registra encontros, medições, pedidos, códigos e narrativas produzidos durante o cuidado. É uma visão parcial e orientada pelo processo, não uma câmera neutra da biologia.
Creatinina frequente pode indicar doença grave, protocolo intensivo ou acesso fácil ao serviço — não apenas função renal.
Qual paciente tende a deixar menos rastros no prontuário — e como isso afeta o que o modelo aprende?
Agniel, Kohane & Weber, BMJ, 2018. Imagem: GNU GPL, Wikimedia Commons.
ESTRUTURADO
demografia · laboratórios
medicamentos · códigos
procedimentos · sinais vitais
bom para consulta e agregação
NARRATIVO
evolução · hipótese
contexto social · incerteza
sumário · plano terapêutico
preserva nuance e temporalidade
Não existe proporção universal confiável de “80% de texto livre” aplicável a todo EHR. A composição varia por instituição, especialidade, época e finalidade.
Que informação importante para sua área costuma existir apenas na narrativa clínica?
Administrativa
Código para cobrança, autorização ou prestação de contas.
≠
Clínica
Interpretação situada, revisável e incerta.
≠
Pesquisa
Definição operacional com códigos, exames e tempo.
Um código de insuficiência cardíaca pode ser histórico, suspeito, justificativa para exame ou doença ativa. Usá-lo como rótulo exige validação.
Quem deveria definir a “verdade” do treinamento — e como medir desacordo?
ANTES
sintomas · história · sinais disponíveis
t₀ · DECISÃO
instante em que o modelo deve prever
DEPOIS
confirmação · tratamento · desfecho
Uma variável só é elegível se estivesse realmente disponível quando a previsão seria usada.
O horário de registro pode diferir do horário em que o resultado ficou disponível. Timestamp não é sinônimo automático de conhecimento.
Qual relógio importa: coleta, resultado, visualização ou registro no banco?
▦ EHR
eventos + narrativas
◫ Imagens
pixels + metadados
∿ Sinais
onda + tempo + artefato
⌬ Ômicas
dimensão + lote
⌂ Contexto social
território + condições de vida
⌚ PGHD
sensores + relatos
Qual modalidade parece mais “objetiva”? Que decisões humanas existem em sua produção?

Pixels · anatomia representada
Aquisição · protocolo, contraste, espessura
Dispositivo · fabricante, modelo, reconstrução
Contexto · paciente, estudo, série, tempo
O modelo pode reconhecer um protocolo associado aos casos graves e usar esse atalho como se fosse anatomia.
Quais metadados servem para auditoria, mas talvez devam sair da entrada do modelo?
DICOM Standard, NEMA. Imagem: Afiller, CC BY-SA 3.0.
Amostragem · o que pode ser capturado?
Artefato · movimento ou fisiologia?
Sincronização · os relógios concordam?
Agregação · o que desaparece na média?
Uma média horária de frequência cardíaca pode esconder uma arritmia de 30 segundos.
Qual transformação torna o sinal modelável — e qual informação ela destrói?
Figura: Wikimedia Commons, CC0.
p
muitos marcadores
>
n
menos participantes
Plataforma, lote, ancestralidade e processamento podem dominar o sinal biológico.
Se casos e controles forem processados em lotes diferentes, o classificador poderá aprender o dia do laboratório.
Como separar treino e teste para que pessoas, famílias e lotes não atravessem a fronteira?
Acesso
serviços e cobertura
Moradia
segurança e exposição
Alimentação
disponibilidade e custo
Trabalho
renda e tempo
Transporte
mobilidade
Território
ambiente e recursos
Determinantes sociais influenciam desfechos — e também quem chega ao serviço, que exame recebe e o que fica registrado.
“Faltou à consulta” pode codificar transporte precário, trabalho inflexível ou barreiras institucionais.
Quando incluir CEP melhora a equidade — e quando reproduz desigualdades territoriais?
Pessoa
usa · carrega · responde
→
Dispositivo
sensor · firmware
→
Plataforma
resume · filtra
→
Cuidado
interpreta · age
Ausência de passos pode significar imobilidade, bateria descarregada, falta de internet ou não uso.
Quem fica de fora quando exigimos wearable compatível e uso contínuo?
Completude
há dados suficientes?
Correção
correspondem ao esperado?
Plausibilidade
valores e relações fazem sentido?
Concordância
fontes compatíveis?
Atualidade
tempo adequado?
Proveniência
origem rastreável?
Uma base pode ser excelente para faturamento e inadequada para estimar gravidade clínica na chegada.
Qual dimensão é decisiva para seu problema — e qual imperfeição pode ser tolerada?
NA não explica por que está vazioMCAR
Ausência não depende dos dados observados nem do valor ausente.
Falha aleatória de transmissão.
MAR
Dados observados explicam o mecanismo assumido.
Protocolo varia por idade registrada.
MNAR
A ausência ainda depende do valor não observado.
Sintoma omitido por sua gravidade.
São mecanismos probabilísticos, não rótulos visíveis na tabela. Classificá-los exige conhecimento do processo e suposições.
Que evidência ajudaria a distinguir falha, decisão clínica e barreira de acesso?
Paciente chega
→
Profissional suspeita
→
Exame é pedido
→
Resultado existe
O modelo aprende com o resultado e com a decisão de medir. Pode funcionar localmente e falhar quando o protocolo muda.
Potássio ausente pode indicar menor suspeita — ou falta de recurso. O padrão admite mecanismos diferentes.
Indicadores de ausência são solução legítima ou codificação do comportamento institucional?
VÁLIDO
informação disponível antes da previsão
t₀
momento da decisão
VAZAMENTO
confirmação · tratamento · desfecho · proxies posteriores
Leakage é qualquer informação que não estaria legitimamente disponível na implantação — não apenas o rótulo explícito.
Uma variável registrada antes de t₀, mas calculada com dados posteriores, pertence a qual lado?
1 · Sintomas
náusea · poliúria
2 · Suspeita
profissional considera DKA
3 · Beta-OHB
teste pedido pela suspeita
4 · Diagnóstico
desfecho registrado
Para alertar antes da suspeita, usar o passo 3 produz um modelo impressionante e inútil. Para apoiar interpretação após o teste, pode ser válido. O uso pretendido decide.
Qual é o primeiro instante em que o modelo deve gerar valor — e quais dados existem então?
População com necessidade de saúde
quem acessa o serviço
quem recebe exame e registro utilizável
quem entra no dataset
Sistemas dermatológicos avaliados em conjuntos pouco diversos podem perder desempenho em tons de pele mais escuros e doenças menos representadas.
Balancear classes não corrige uma população que nunca entrou no funil.
Quem pode estar ausente mesmo quando “raça/cor” parece completa?
HOSPITAL A
prevalência · aparelho · protocolo · população
treino
→
HOSPITAL B
outra prevalência · aparelho · fluxo · população
implantação
Zech et al. observaram desempenho variável entre hospitais; o modelo também distinguia a instituição de origem da radiografia.
Que validação separaria “aprendeu pneumonia” de “aprendeu o hospital”?
Cenário fictício: criar um alerta de cetoacidose na chegada ao pronto atendimento, antes da decisão de pedir exames confirmatórios.
| ID | idade | glicose_t0 | HCO₃_t0 | betaOHB | hora_betaOHB | UTI_24h | DKA |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 101 | 24 | 438 | 12 | 5,8 | +75 min | sim | sim |
| 102 | 61 | 286 | NA | NA | NA | não | não |
| 103 | 24 | 438 | 12 | 5,8 | +75 min | sim | sim |
| 104 | −3 | 352 | 19 | NA | NA | não | não |
| 105 | 46 | NA | 8 | 7,1 | +40 min | sim | sim |
| 106 | 39 | 198 | 25 | 0,3 | +110 min | não | não |
Há ausência, duplicata provável, valor impossível, tempos distintos e variáveis posteriores a t₀.
Antes de “limpar”, que perguntas você faria a quem extraiu os dados?
1 · Semântica
definição, unidade, origem e janela?
2 · Qualidade
completude, plausibilidade, duplicação e tempo?
3 · Validade
o que vaza o futuro? qual é t₀?
4 · Governança
o que remover, restringir ou documentar?
12 min · auditoria8 min · correção10 min · crítica cruzada
Entregável: três riscos priorizados, uma pergunta ao custodiante e uma decisão de “pode / não pode modelar ainda”.
PROTEGER
remover identificadores
generalizar datas e locais
controlar acesso
registrar finalidade
⇄
PRESERVAR UTILIDADE
temporalidade clínica
vínculo longitudinal
subgrupos relevantes
proveniência necessária
Remover datas reduz risco e pode destruir a análise de tempo até evento. A solução pode exigir ambiente controlado, não só transformação da tabela.
Que informação é indispensável à pergunta e qual é apenas conveniente?
Ação tentadora
imputar todos os NA
remover todos os outliers
deduplicar por igualdade
usar todas as colunas
Pergunta crítica
por que está ausente?
é impossível ou raro?
duplicata ou retorno?
existia em t₀?
A auditoria não produz uma tabela “bonita”; constrói uma interpretação defensável do processo gerador.
Qual correção poderia melhorar a métrica e piorar a validade clínica?
Quem?
pessoa, profissional, dispositivo
Como?
método, unidade, protocolo
Quando?
coleta, resultado, registro
Onde?
sistema, instituição, território
Por quê?
decisão ou finalidade original
“Pressão arterial = 90/60” é insuficiente sem posição, dispositivo, horário, contexto e motivo da medição.
Qual metadado você recuperaria para a variável mais importante do seu projeto?
1 Dados clínicos são rastros do cuidado, não observações neutras.
2 Modalidades carregam erros e contextos diferentes.
3 Qualidade significa adequação à finalidade.
4 Missingness, seleção e leakage exigem conhecer tempo e processo.
5 Proveniência é parte da evidência.
Antes de perguntar “qual modelo?”, pergunte: quem produziu este dado, por quê, quando e para qual finalidade?
Um exame não aparece. O dado está faltando — ou a ausência revela uma decisão clínica?
O que você responderia agora?
Que proveniência pediria?
Como testaria outras explicações?
Complete: “Este NA só pode ser interpretado se eu souber…”
Sistema A
“glicemia” · mg/dL
⇄
SEMÂNTICA + PADRÃO
FHIR · LOINC · SNOMED CT · OMOP
⇄
Sistema B
“glucose” · mmol/L
No Encontro 3, passamos da heterogeneidade para estrutura, terminologia e significado compartilhado.
Qualidade, processo e missingness
Generalização, leakage e equidade
Figuras
prontuario-eletronico.jpg — Wikimedia Commons, GNU GPL.tomografia-cerebro.jpg — Afiller, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.ecg-ritmo-sinusal.svg — Wikimedia Commons, CC0.Encontro 2 · Ecossistema e qualidade dos dados clínicos