Da correlação ao efeito: DAGs, confundimento, propensity scores e emulação de ensaios-alvo
Mensagem central: uma variável pode predizer saúde sem ser uma alavanca terapêutica eficaz.
Durante décadas, HDL alto esteve associado a menor risco cardiovascular. Mas elevar HDL artificialmente com algumas terapias não reduziu mortalidade ou eventos como se esperava. O marcador parecia “bom”; a intervenção não entregou o efeito causal.
Exemplo aplicado: HDL pode sinalizar estilo de vida, metabolismo e risco basal. Aumentar o número no exame não necessariamente muda o mecanismo que protege o paciente.
Sugestão visual: duas trilhas: “HDL como marcador” e “HDL como alvo terapêutico”, mostrando onde a correlação quebra.
Se uma variável prediz bem um desfecho, o que ainda falta para tratá-la como alvo de intervenção?
Referências: Barter et al. (2007); Schwartz et al. (2012); Voight et al. (2012).
Como sair de “pacientes que receberam X tiveram melhor desfecho” para “se eu der X a pacientes semelhantes, o desfecho melhora”?
1 Separar
predição de efeito causal.
→
2 Desenhar
DAGs e confundidores.
→
3 Balancear
grupos com propensity score.
→
4 Emular
ensaios-alvo com dados reais.
Mensagem central: modelos preditivos respondem “quem tem risco?”; inferência causal pergunta “o que acontece se eu agir?”.
Um modelo pode identificar pacientes que receberam UTI e morreram mais. Isso não significa que a UTI causa morte. Pacientes mais graves vão para UTI: a indicação do tratamento carrega informação sobre o risco.
Exemplo aplicado: antibiótico de amplo espectro aparece associado a mortalidade maior porque é prescrito para pacientes mais graves.
Em que situações da prática clínica a predição sozinha pode induzir uma conclusão causal errada?
Referências: Pearl (2009); Hernán & Robins (2020).
“Qual é a chance de Y dado que observo X?”
Pergunta: o que normalmente acontece com quem tem X?
“Qual é a chance de Y se eu intervenho e defino X?”
Pergunta: o que aconteceria se eu mudasse X?
Exemplo aplicado: observar que pacientes em ventilação mecânica morrem mais não responde o efeito causal de ventilar; responde que esses pacientes estavam muito mais graves.
Qual pergunta do seu projeto é observacional e qual é, de fato, causal?
Mensagem central: confundimento acontece quando uma causa comum influencia tratamento e desfecho.
Em dados reais, o tratamento não cai do céu. Ele é escolhido por médicos, pacientes e sistemas. Essa escolha depende de gravidade, acesso, preferências, exames e contraindicações.
Exemplo aplicado: pacientes mais graves recebem corticoide; depois parecem ter pior desfecho. Sem ajustar gravidade, podemos culpar o tratamento pelo risco que já existia.
Qual confundidor você suspeita que quase sempre está ausente nos bancos administrativos?
Mensagem central: DAG não é enfeite metodológico; é uma declaração explícita do que acreditamos sobre o mundo.
Em um DAG, nós são variáveis e setas representam relações causais diretas. O desenho ajuda a decidir o que ajustar, o que não ajustar e onde uma associação pode ser aberta artificialmente.
Exemplo aplicado: ajustar por um mediador — por exemplo, pressão arterial após tratamento — pode remover parte do efeito que queríamos estimar.
Que variável no seu estudo parece tentadora para ajustar, mas talvez esteja no caminho causal?
Referências: Greenland et al. (1999); Pearl (2009).
Mensagem central: ajustar mais variáveis nem sempre melhora; às vezes cria viés.
Causa tratamento e desfecho. Geralmente precisa ser ajustado.
Está no caminho do efeito. Ajustar pode apagar parte do efeito total.
É consequência de duas causas. Ajustar pode criar associação artificial.
Qual erro é mais comum: deixar confundidor de fora ou ajustar variável demais?
Mensagem central: propensity score tenta equilibrar características basais que influenciaram a escolha do tratamento.
O escore de propensão é a probabilidade de receber o tratamento dadas as características antes da intervenção. Pode ser usado para pareamento, estratificação, ponderação ou ajuste.
Exemplo aplicado: comparar pacientes com pneumonia que receberam vitamina D com controles de gravidade, idade, comorbidades e acesso semelhantes.
Quais variáveis precisam existir antes da decisão terapêutica para entrar no propensity score?
Referências: Rosenbaum & Rubin (1983); Austin (2011).
Mensagem central: na medicina, a indicação do tratamento frequentemente denuncia o risco do paciente.
Tratamento parece perigoso porque é dado aos mais graves.
Exemplo: vasopressor associado a mortalidade.
Entre pacientes com gravidade comparável, receber o tratamento muda o desfecho?
Exemplo: efeito de iniciar antibiótico em até 1 hora.
Exemplo aplicado: se só pacientes graves fazem tomografia, “fazer tomografia” pode aparecer associado a pior prognóstico — mas a causa é a suspeita clínica que levou ao exame.
Como você distinguiria “tratamento de alto risco” de “tratamento dado a pacientes de alto risco”?
Mensagem central: antes de analisar dados reais, escreva o ensaio randomizado que você gostaria de ter feito.
Target trial emulation define elegibilidade, tempo zero, estratégias de tratamento, desfechos, seguimento, estimando e plano analítico. Isso reduz vieses clássicos como immortal time bias e escolhas pós-desfecho.
Exemplo aplicado: para avaliar vitamina D em pneumonia, tempo zero pode ser admissão; tratamento deve ser iniciado em janela definida; desfecho é tempo de internação ou alta viva em 7 dias.
Qual detalhe do protocolo, se mal definido, destruiria a validade do seu estudo?
Referências: Hernán & Robins (2016); Hernán & Robins (2020).
Mensagem central: variantes genéticas podem funcionar como instrumentos quando afetam uma exposição de interesse e são alocadas antes da doença.
A ideia é usar a “loteria genética” como uma aproximação de randomização natural. Ela é poderosa, mas depende de hipóteses fortes: o instrumento precisa afetar o desfecho apenas pela exposição.
Exemplo aplicado: estudos genéticos ajudaram a questionar HDL como causa direta de proteção contra infarto, apesar de sua associação observacional.
Qual hipótese da randomização mendeliana parece mais vulnerável na prática?
Referências: Davey Smith & Ebrahim (2003); Voight et al. (2012).
Mensagem central: dados reais podem revelar efeitos adversos combinados que ensaios de droga única não enxergam.
Redes causais e mineração de registros podem levantar hipóteses sobre interações medicamentosas. Mas o achado observacional precisa ser tratado como sinal a investigar, não prova automática.
Exemplo aplicado: a combinação paroxetina + pravastatina foi associada a aumento de glicose, um sinal difícil de detectar estudando cada droga isoladamente.
Como separar um sinal útil de farmacovigilância de ruído gerado por múltiplas comparações?
Referência: Tatonetti et al. (2011).
Mensagem central: evidência do mundo real ganha força quando o cuidado rotineiro é medido com granularidade suficiente para comparar pacientes comparáveis.
Inclui pacientes mais diversos que muitos RCTs.
Captura trajetórias, comorbidades, doses e adesão.
Exige estratégia explícita para variáveis que guiam decisões.
Protocolo, código, sensibilidade e validação são essenciais.
Exemplo aplicado: grandes coortes podem comparar estratégias de reabilitação, mas só se medirem gravidade funcional, adesão e indicação terapêutica.
Que variável clínica “óbvia” raramente é bem registrada no prontuário?
Cenário: o hospital observa que pacientes com pneumonia que tomavam vitamina D tiveram alta 2 dias antes. A direção quer transformar isso em protocolo. A turma precisa decidir se há indício causal suficiente.
1
Listar confundidores: gravidade, nutrição, fragilidade, acesso, hábitos e comorbidades.
2
Desenhar o DAG e indicar quais variáveis precisam ser medidas antes do tratamento.
3
Propor target trial: elegibilidade, tempo zero, estratégia e desfecho.
4
Decidir se o achado vira hipótese, estudo prospectivo ou mudança de protocolo.
10 min · DAG 10 min · pareamento/ponderação 10 min · decisão institucional
Pergunta causal: Vitamina D reduz tempo de internação por pneumonia?
Possíveis confundidores: - idade e fragilidade - gravidade na admissão - comorbidades - estado nutricional - nível socioeconômico - exposição solar / estilo de vida - acesso a cuidado ambulatorial
Possíveis problemas: - tratamento iniciado antes da admissão - dose e adesão desconhecidas - alta influenciada por suporte domiciliar
Quais setas do DAG vocês defenderiam — e quais seriam controversas?
Mensagem central: causalidade raramente é um botão “sim/não”; é um acúmulo de desenho, hipótese, análise, sensibilidade e triangulação.
Em qual ponto do continuum você exigiria estar antes de mudar uma diretriz clínica?
Mensagem central: um Learning Health System transforma cuidado rotineiro em aprendizado contínuo — com ética, governança e método causal.
O ciclo ideal não é “coletar tudo e ajustar um modelo”. É formular pergunta relevante, medir bem, analisar com desenho causal, devolver conhecimento ao fluxo e monitorar consequências.
Exemplo aplicado: após implantar um protocolo de sepse, o hospital monitora efeito em mortalidade, antibiótico excessivo, resistência e eventos adversos.
Que pergunta causal o seu serviço poderia responder usando dados que já coleta hoje?
Saber quem tem risco não diz automaticamente o que fazer.
Eles expõem hipóteses, confundidores, mediadores e armadilhas.
Dados reais só viram evidência quando emulam uma pergunta causal bem formulada.
Inferência causal é a disciplina de perguntar “e se?” sem fingir que dados observacionais são randomização.
Agora que perguntamos por que algo funciona, vem o desafio operacional: como levar essa inteligência ao fluxo clínico sem gerar fadiga de alertas?
Encontro 12 · Inferência causal, RWE e ensaios-alvo