Evolução e Fundamentos da IA na Saúde

De sistemas especialistas à colaboração humano–máquina

Aprendizado de Máquina para Saúde — Pós-graduação

Antes de começar: escolha uma posição

Se um sistema recomenda um tratamento melhor do que a maioria dos especialistas, ele está pronto para atender pacientes?

SIM

O desempenho já justifica o uso.

DEPENDE

Preciso saber como foi avaliado.

NÃO

Desempenho não basta para uso clínico.

Levante a mão, escolha uma posição e guarde seu argumento. Voltaremos a ele no final.

O mapa da nossa conversa

Hoje não vamos decorar uma cronologia. Vamos acompanhar como a IA mudou o modo de representar um problema clínico.

1

Representar

Conhecimento como regras

2

Aprender

Padrões a partir de dados

3

Decidir

Risco não é conduta

4

Integrar

Humano + máquina + contexto

Fio condutor: quando dizemos que “a IA acertou”, o que exatamente ela acertou?

1979: uma provocação incômoda

MYCIN

65%

aceitabilidade

×

Especialistas docentes

42,5–62,5%

aceitabilidade

Em uma avaliação cega, o sistema recomendou antimicrobianos tão bem quanto — ou melhor que — os comparadores humanos.

Mas atenção: eram dez casos de meningite, avaliados fora do cuidado real. Resultado promissor não é sinônimo de efetividade clínica.

O que ainda precisaríamos saber antes de colocar o MYCIN em um plantão?

Então por que a revolução parece tão recente?

Não houve uma descoberta isolada. Quatro forças passaram a operar juntas.

Dados digitais

EHR, imagens, sinais e texto em escala

Computação

GPUs, nuvem e armazenamento

Arquiteturas

Redes profundas e transformers

Infraestrutura

Integração e distribuição em massa

Mais dados clínicos significam necessariamente melhor conhecimento clínico?

Uma história feita de ciclos — não de uma linha reta

Linha do tempo ilustrada da história da inteligência artificial

1956 · Dartmouth
O campo ganha nome e uma ambição.

1970–80 · Sistemas especialistas
Conhecimento vira regra computável.

2010s · Deep learning
Representações passam a ser aprendidas.

2020s · Modelos fundacionais
Uma interface geral para muitas tarefas.

O que essa narrativa tecnológica deixa fora do quadro — pacientes, trabalho, acesso, instituições?

História: Dartmouth AI. Imagem: Tarjomyar, CC BY-SA 4.0.

A primeira grande aposta: transformar expertise em regras

SE a infecção provável é meningite
E o organismo pode ser gram-negativo
E há alergia à penicilina
ENTÃO priorizar terapias compatíveis
COM CERTEZA 0,7

Dados do paciente

Regras + inferência

Hipótese + justificativa

A força está na explicitação: podemos inspecionar qual regra foi ativada. A fragilidade também: alguém precisa escrever, revisar e manter cada regra.

Uma regra visível é automaticamente compreensível — e útil — para quem toma a decisão?

MYCIN e INTERNIST-1 não queriam fazer a mesma coisa

MYCIN INTERNIST-1
Domínio Infecções graves Medicina interna
Pergunta principal Qual organismo e qual terapia? Qual diagnóstico explica os achados?
Estratégia Regras + fatores de certeza Relações entre achados e doenças
Força Domínio estreito e justificável Diagnóstico diferencial amplo
Limite Muitas perguntas e manutenção Representação simplificada da doença

“Imitar o raciocínio médico” nunca foi uma única tarefa. Escolher o recorte já é uma decisão de projeto.

Para apoio clínico, você prefere um sistema estreito e profundo ou amplo e superficial?

O gargalo: conhecimento não cabe inteiro numa regra

O que conseguimos formalizar

protocolos · limiares · relações conhecidas

~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

O contexto que resiste à formalização

exceções · discordância · mudança epidemiológica
fluxo de trabalho · preferências · conhecimento tácito

Uma regra de antibiótico pode continuar logicamente correta e se tornar clinicamente inadequada quando muda o perfil local de resistência.

O que é mais difícil de atualizar: uma regra clínica ou um modelo treinado? Em que condições?

A mudança de paradigma

IA simbólica

Especialista escreve regras

conhecimento → programa

Vantagem: inspeção direta
Risco: exceções e manutenção

Aprendizado de máquina

Dados ajustam parâmetros

exemplos → função preditiva

Vantagem: escala e padrões complexos
Risco: atalhos e opacidade

Numa radiografia, o modelo pode aprender a doença — ou aprender o hospital, o aparelho, a posição do paciente e marcas deixadas no exame.

Aprender dos dados reduz ou apenas desloca a dependência de especialistas?

Deep learning: reconhecer um padrão não é compreender um caso

Radiografia frontal do tórax com estruturas anatômicas assinaladas

Pixels

O exame que entra

Padrão

O escore que sai

Conduta

O que fazer com a pessoa

Em 2017, um classificador de lesões cutâneas foi comparado com 21 dermatologistas em tarefas binárias específicas. Foi um marco técnico — não uma autorização clínica universal.

Detectar um padrão compatível com pneumonia não decide, sozinho, sobre antibiótico, internação ou investigação alternativa.

O que o modelo pode estar vendo que não tem relação causal com a doença?

Esteva et al., Nature, 2017. Radiografia: U.S. Army, domínio público.

Pausa de dois minutos: encontre o atalho

Um modelo identifica pneumonia com alta acurácia no Hospital A, mas perde desempenho no Hospital B. O que ele pode ter aprendido?

Aparelho

Padrões do equipamento

Fluxo

Quem recebe cada exame

Gravidade

Posição e suporte usados

Instituição

Protocolos e prevalência

Converse com quem está ao lado. Proponham um teste que diferencie “aprendeu pneumonia” de “aprendeu o hospital”.

Modelos fundacionais: uma interface geral, novos modos de falhar

Prontuário

Notas, exames, prescrições

LLM

Prediz a próxima sequência plausível

✓ informação preservada

− informação omitida

! informação inventada

Um resumo de alta pode soar impecável e ainda omitir uma alergia, inventar um resultado ou trocar a ordem temporal dos eventos.

Fluência é uma propriedade da linguagem. Confiabilidade clínica é uma propriedade do sistema em uso.

Qual erro é mais perigoso: o absurdo evidente ou a falsidade discretamente plausível?

Três perguntas que não podemos misturar

AGORA

Diagnóstico

O que explica o quadro?

A dispneia é embolia pulmonar?

DEPOIS

Prognóstico

O que provavelmente acontecerá?

Qual o risco de deterioração em 24 h?

AÇÃO

Decisão

O que devemos fazer?

Devemos anticoagular antes da imagem?

Uma predição informa a decisão; ela não contém, sozinha, benefícios, danos, preferências e alternativas.

Em que ponto valores e preferências entram — e por que não podem ser inferidos apenas do risco?

Informática Cognitiva: a unidade é o conjunto

Três médicos discutem radiografias de tórax

Humano

contexto · valores
responsabilidade · improvisação

Máquina

memória · consistência
escala · vigilância

Os dois erram — e podem amplificar o erro um do outro. O desenho da interação importa tanto quanto o modelo.

Uma segunda leitura algorítmica deve aparecer antes ou depois da primeira hipótese do médico?

Imagem: Bill Branson/National Cancer Institute, domínio público.

DIKW: a subida não é automática

DADOS

SpO₂ = 89%

INFORMAÇÃO

Há hipoxemia

CONHECIMENTO

Causas e riscos possíveis

SABEDORIA

Ação adequada para esta pessoa

A mesma saturação muda de significado conforme altitude, doença de base, tendência temporal, sintomas e metas terapêuticas.

Quem decide quando informação suficiente se tornou conhecimento acionável?

Do benchmark ao benefício clínico

1 Desempenho interno

Funciona nos dados de desenvolvimento?

2 Validação externa

Funciona em outro lugar e outra população?

3 Avaliação prospectiva

Funciona no fluxo real?

4 Impacto clínico

Melhora decisões e desfechos sem ampliar danos?

5 Monitoramento

Continua funcionando ao longo do tempo?

Um alerta mais sensível pode detectar mais casos e também aumentar fadiga, exames desnecessários e atrasos.

Qual desfecho convenceria você de que o sistema melhorou o cuidado — não apenas a métrica?

Explicar para quê?

Por quê?

Quais evidências sustentam a saída?

Comparado a quê?

Qual alternativa mudou?

Quando falha?

Quais limites e dados ausentes?

Quem responde?

Quem pode contestar e agir?

Uma explicação é útil quando permite verificar, contestar ou calibrar confiança — não quando apenas parece intuitiva.

Você aceitaria menor precisão em troca de uma explicação acionável? Quanto menor?

Caso André: o que sabemos — e o que estamos supondo?

André · falta de ar após voo longo

Dias antes
Sintomas virais

Voo prolongado
Imobilidade

Agora
Dispneia

?
SpO₂, FC, dor, edema, história

A tarefa não é adivinhar o diagnóstico. É tornar visíveis os dados, as lacunas e os pressupostos que cada abordagem usa.

Qual dado ausente mudaria mais sua conduta imediata — e por quê?

Atividade em grupos: duas representações do mesmo caso

GRUPO A · abordagem MYCIN

  1. Escreva 4–6 regras SE–ENTÃO.
  2. Atribua incerteza a uma conclusão.
  3. Mostre como o sistema justificaria a recomendação.
  4. Identifique uma exceção difícil de codificar.

GRUPO B · abordagem ML

  1. Defina população, desfecho e horizonte.
  2. Escolha as variáveis disponíveis antes da decisão.
  3. Diga onde surgem os rótulos.
  4. Identifique um paciente que pode ficar invisível.

12 min · construção8 min · crítica cruzada10 min · síntese

Que erro sua representação torna fácil de enxergar — e qual tende a esconder?

Debrief: regras e modelos deslocam o trabalho

Regras tornam visível

premissas · encadeamento · justificativa

Mas escondem

trabalho de manutenção · desacordo · contexto tácito

Modelos tornam visível

padrões · ranking de risco · desempenho agregado

Mas escondem

proveniência · atalhos · casos fora da distribuição

Nenhuma representação é neutra. Cada uma ilumina parte do problema e deixa outra parte na sombra.

Qual abordagem tornou mais explícita a responsabilidade pela decisão final?

Cinco ideias para levar

1 A IA em saúde tem história longa e descontínua.

2 Regras e modelos deslocam — não eliminam — o trabalho humano.

3 Diagnóstico, prognóstico e decisão são problemas diferentes.

4 Desempenho técnico não garante benefício clínico.

5 A unidade real de avaliação é sociotécnica.

A IA funciona para quem, em qual tarefa, com quais dados, em qual fluxo e sob qual governança?

Volte à sua resposta inicial

Se um sistema recomenda um tratamento melhor do que a maioria dos especialistas, ele está pronto para atender pacientes?

O que você manteria da sua resposta inicial?

O que você reformularia depois desta aula?

Qual evidência pediria antes de implantar o sistema?

Escreva uma frase. Depois, compartilhe com alguém que escolheu uma posição diferente no início.

Próximo encontro: o dado clínico não é matéria-prima neutra

EHR

decisões e registros

DICOM

imagens e protocolos

Sinais

tempo e artefatos

Texto

linguagem e contexto

Ausência de exame pode significar baixo risco, falta de acesso, decisão clínica, falha operacional — ou dado armazenado em outro sistema.

Em seu contexto, qual ausência de dado corre maior risco de ser confundida com ausência de doença?

Referências e créditos

Referências essenciais

  • McCarthy, J. et al. A Proposal for the Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence (1955). História institucional.
  • Yu, V. L. et al. Antimicrobial Selection by a Computer. JAMA 242, 1279–1282 (1979). DOI.
  • Esteva, A. et al. Dermatologist-level classification of skin cancer with deep neural networks. Nature 542, 115–118 (2017). DOI.
  • World Health Organization. Ethics and governance of artificial intelligence for health (2021). WHO.

Figuras